Do Paraíso ao inferno

Depois de ficar o mês de janeiro quase que inteirinho em férias e um fevereiro meio que preguiçoso para sair da redação, nessa quarta-feira fechei a agenda para começar 2010 em grande estilo. As escolhas prometiam: Maní no almoço e Eñe no jantar.

No almoço, com membros da Academia Brasileira de Gastronomia e grandes vinhos, tive a oportunidade mais uma vez de confirmar a excelência do trabalho executado pela dupla Helena Rizzo e Daniel Redondo, cada vez mais afinados. Os dois capricharam em um menu degustação dos deuses. Começou com o instigante bombom de foie gras com goiabada e capa de vinho do Porto, tudo combinando; seguiu com um dos melhores pratos da casa e pedida obrigatória, o ovo caipira á baixa temperatura com rico creme de pupunha assada. Esse é um prato que fica na memória, perfeito. Depois chegou a vez do Robalo cozido no tucupi com banana da terra e migalhas, com o peixe perfumado e no ponto mais do que exato de cozimento, com a presença sutil do tucupi. Já estava no paraíso, mas ainda veio o rosbife em crosta de lapsang sauchon com salada morna de batatas, carne delicada, rosada e macia. Ainda teve a sobremesa com frutas picadinhas e açaí. Resumindo: junto com o atendimento caprichado da brigada, a casa cumpre o que se espera dela.

Parti para uma tarde de reuniões e com a certeza de que o jantar também prometia. O Eñe é uma das casas mais agradáveis da cidade, com profissionais bem treinados e chefs muito competentes. Além dos irmãos Javier e Sergio Torres, brilha o talento do chef Flávio Miyamura, que há muito tempo deixou de ser promessa, para entrar no time dos grandes profissionais do país. No Eñe estava participando de um jantar especialmente organizado pela Junta de Extremadura, uma das ricas regiões espanholas. Além de degustar os bons vinhos espanhóis, provamos deliciosos embutidos. De entrada, o chef mandou bala em dois clássicos da Espanha: pimientos del piquillo rellenos de bacalao, com o pimentão cobrindo uma deliciosa brandade do pescado e fazendo um lindo visual; e com pulpo a la gallega, com o polvo cortado em pedaços e espetado com rodelas de batata. Simples e delicioso. O ponto alto ficou com o lomo de corvina, com o peixe alto, no ponto certo, molhado e saboroso. Arrematei de imediato na mente, que junto com o DOM e com a casa de Roberta Sudbrack, o Maní e o Eñe, estavam no top five da gastronomia brasileira.

Porém, quando pedi o carro ao manobrista, fui obrigado a recordar o ensinamento de dois mestres, ambos jornalistas e, infelizmente, falecidos. Um deles, Mário de Andrade, diretor da Playboy na década de 1980, sempre dizia que o “diabo se esconde nos menores buracos, sempre pronto para estragar o fechamento”; já mestre Saul Galvão sempre lembrava que “um café ruim estraga toda a refeição”. Simples assim. Voltando ao manobrista do Eñe, depois de pagar 14 reais e constatar que o meu carro estava estacionado ali mesmo na Mário Ferraz, na rua, fiquei pensando se comentava ou não o custo de tão “caro estacionamento”, e resolvi soltar uma frase ultrajante para tão brilhante profissional: “Puxa, 14 reais para ficar parado ali mesmo na rua”. Recebi de volta um sem pulo de primeira: “Pode deixar, da próxima vez a gente pede para o senhor mesmo estacionar!!”. Isso é o que eu chamo de, em dois segundos, apagar o excelente trabalho dos chefs.

Se é que tenho esse direito, um conselho para os donos de restaurantes: “Não se esqueçam, Deus está nos detalhes”.

 

 

6 Responses para “Do Paraíso ao inferno”

  1. Marta escreveu:

    Toda razão. O sistema de manobristas em São Paulo precisa ser revisto, e chefs e donos de restaurantes têm bastante poder de fogo nessa negociata. Deviam tirar proveito.

  2. Paulo Castro escreveu:

    Já passei por isso no Eñe e fiquei com a mesma sensação. A comida é maravilhosa, o serviço de salão muito bom e no final o manobrista pega o seu carro na rua. Os donos de restaurante não prestam atenção nesses detalhes. Por isso que famílias tradicionais como os Iglesias. Fasano, Giancarlo Bolla continuam brilhando. Nas casas desses senhores tudo funciona.

    abs
    Paulo

  3. Rcastilho escreveu:

    Paulo e Marta,
    Detalhes fazem a diferença.
    RC

  4. Laura Lacerda Fonseca escreveu:

    E o diabo também… já dizia Kotler!

  5. Antonio Carlos escreveu:

    Isso anda acontecendo tambem aqui no interior.
    É o nosso Brasil !

  6. Cláudio Gonzalez escreveu:

    Com estacionamento não lembro de ter tido experiências desagradáveis, mas por duas vezes um gesto, ou falta de um gesto, estragou toda a refeição: quando termino de assinar o comprovante do cartão de crédito com o qual paguei (caro) meu jantar, o mínimo que todo cliente espera é ouvir um “muito obrigado”. Mas por duas vezes, em restaurantes bem conceituados, eu não ouvi o “muito obrigado”. O garçom simplesmente recolheu a caderneta e saiu, me deixando com aquela sensação de que eu estava ali incomodando eles por ter ido jantar. São só duas palavrinhas, ou até uma só, um simples “obrigado”, que não custa nada, mas são tão importantes que me ajudam a decidir se devo ou não continuar cliente de algum estabelecimento.

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